Glocalidades trouxe nestas últimas semanas uma análise da cobertura da imprensa nacional e internacional em fatos que interligam a Violência aos Turistas no Brasil. Uma pesquisa por sites de jornais estrangeiros e do país trazem à tona a discussão: “Como o Brasil é visto pelos olhos de outras nacionalidades?”. O famoso episódio de Simpson´s é um marco inicial para a discussão, apresentando piadas com sentido pejorativo, que denigrem a imagem de nosso país.
Antes da exposição das manchetes sobre o tema abordado, faz-se necessário uma breve reflexão: será que representamos algo mais, ou continuamos sendo vistos apenas como homens e lindas mulheres nuas que moram nas favelas, tomam caipirinha e participam do narcotráfico enquanto pulam carnaval ao som do samba ou funk; assistem ao futebol e brincam com os macacos nas florestas, até que chega o BOPE e começa então a violência?
Ou seja, de acordo com matérias lançadas neste ano pela edição on line do jornal espanhol El País, a primeira citação (lindas mulheres nuas) fica por conta das primeiras linhas de um artigo divulgado no dia 24 de janeiro de 2009: “Cuando se habla de carnaval en Brasil, Río de Janeiro es para muchos el referente. Las imágenes que recorren el mundo son las de mulatas en biquini de lentejuelas bailando en la Marqués de Sapucaí [...]“.
A segunda menção (favelas) diz respeito a muitas matérias que citam a palavra como sendo a definição do Rio de Janeiro, um exemplo é a manchete lançada no dia 28 de março: Un muro de tres metros de hormigón armado para ocho favelas de Río; Outros dois exemplos são as páginas dedicadas às fotografias, com as seguintes manchetes: Vista de la favela de Vidigal (20 de março), pela Reuters; e a fotografia divulgada no dia anterior pela EFE: Rocinha, la mayor favela de América Latina.
No que diz respeito ao narcotráfico, as manchetes são seqüenciais e apelativas.
Dia 24 de março: Cinco muertos en un tiroteo entre narcotraficantes y policía en Copacabana.
Dia 25 de março: Batalla campal entre policías y ‘narcos’ en una favela de Río.
Dia 25 de março: Operación policial contra el narcotráfico en Río.
Dia 26 de março: La guerra perdida contra la droga.
Quanto ao carnaval, é melhor dispensarmos comentários.
O samba, é descrito como: “[...] el mundo de la samba, que tiene su mayor eco y sus mejores intérpretes en las favelas, no hace otra cosa que captar el clima de violencia que atenaza a los ciudadanos y que les impide vivir la cara nocturna y festiva de una ciudad que no dormía” (matéria de agosto de 2008).
E por fim, o BOPE. Para quem não achava que este órgão é conhecido fora do Brasil, o El País deixou explícita sua indignação quando fora veiculado o filme Tropa de Elite. A manchete, que data de 28 de julho de 2008 já denuncia a posição do jornal: ‘Tropa de élite’, o de cómo un torturador se convierte en héroe”. Mas é no trecho extraído que há uma evidência: “Batallón de Operaciones Policiales Especiales (BOPE), cuerpo conocido por sus métodos para combatir el crimen: tortura, asesinatos y ejecuciones sumarias. ¿Cómo es posible que estas violaciones sistemáticas de los derechos humanos hayan sido mimetizados de manera festiva, si no con admiración, por buena parte de la población brasileña?”
Além disso, uma matéria veiculada no site do G1, enuncia: “Confronto no Rio já é destaque na imprensa internacional”. O subtítulo é ainda mais revelador: “O confronto entre policiais e traficantes no morro da Ladeira dos Tabajaras virou notícia em jornais da Inglaterra, em sites de agências internacionais e também na Indonésia e em Taiwan.”
Enumerados os itens acima, pode-se analisar então o tema de Glocalidades destes próximos dias (Violência e Turismo no Brasil). Abre-se espaço para este debate em Fórum e peço para que contribuam com suas opiniões, sempre embasadas em algum fato noticioso veiculado por qualquer mídia.
Uma análise minuciosa dos meses de fevereiro e março 2009 traz alguns levantamentos relevantes. Como fontes, utilizamos, sobretudo, o site O DIA, que pertence ao portal de notícias TERRA.
No dia 18 de fevereiro de 2009 o site UOL, em seu canal de Últimas Notícias lança matéria da Reuters intitulada: “Grupo armado invade albergue e assalta turistas em Copacabana“.
No dia 19/02/2009, o veículo O Dia traz a manchete: “Turistas assaltados: Repercussão causa cancelamento de reservas”.
Nesta data, o mesmo site publica outra matéria relacionada ao assunto, sob a manchete: “Mais dez turistas são atacados no Rio”.
O jornal internacional da Reuters declarou que mais de 40 turistas haviam sido assaltados em dois diferentes incidentes na cidade do Rio de Janeiro: “More than 40 tourists were assaulted and robbed in two separate incidents in Rio de Janeiro”. A manchete: “Forty tourists assaulted on eve of Rio Carnival”.
No dia seguinte, 20/02/2009, o jornal on-line, O Dia, noticia: “Bandidos atacam 70 turistas em menos de 48 horas”.
No mesmo dia, uma matéria que tem como fonte O Globo, divulgada pelo site Gabeira, anuncia: “Turistas assaltados no RJ: terceiro caso em 48 horas”.
Ainda na mesma data, o site O Globo, lança uma matéria assinada pelo próprio site e pela CBN intitulada: “Turista chinesa é assaltada e agredida em Santa Teresa”. A matéria expõe três diferentes assaltados em dias consecutivos na cidade do Rio de Janeiro: na quarta-feira, um assalto em um albergue em Copacabana; na quinta-feira um assalto a um grupo de dez americanos e alemães; e na sexta-feira, data da divulgação da matéria, o assalto à chinesa.
Ainda no dia 20 de fevereiro, o site O Dia, escreve uma matéria com o resumo dos últimos assaltos na cidade do Rio de Janeiro. Sob o título de: “Preso suposto assaltante de turistas na Lapa”, a matéria conta que foram assaltados dos albergues em menos de dois dias, além disso, havia queixa de mais dois casos com australianos e citava o episódio dos alemães e americanos também assaltados na cidade.
E por fim, a mesma matéria da Reuters, foi publicada nesta data por outro site americano, sob a manchete de: “Tourists assaulted on eve of Carnival“.
No dia 21/02/2009 o site O Dia, anuncia: “Turistas na mira de bandidos“, o subtítulo da matéria revela: “Mais dois estrangeiros são vítimas. Polícia registra nesta época do ano aumento de 20% nos ataques”.
A repercussão de tantos assaltos é logo divulgada pelos sites internacionais. O site Shanghai Daily.com anunciou, no dia 21 de fevereiro de 2009 a manchete: “Tourists assaulted on eve of Rio carnival“.
A matéria era a mesma divulgada dias atrás pela Reuters e pelo outro site americano.
Um dia depois, 22/02/2009, um outro site americano divulga uma barbárie de manchete: “Rio embarrassed by surge in Carnival crime against tourists” ; isto é, O Rio se envergonha de surgir crimes contra turistas na época do carnaval. Entretanto em nenhuma das matérias divulgadas houve algum depoimento que afirmasse tal informação!
No dia 27 do mês de fevereiro, o site O Dia chama a atenção com a manchete: “Turistas de fora criticam violência do Rio”.
No mês de março, temos as seguintes manchetes:
Saiu no site da rádio Jovem Pan, no dia 16 de março de 2009 a matéria: “Criminosos roubam 30 turistas argentinos em Búzios”
A repercussão foi imediata, ainda no dia do acontecimento (16 de março de 2009) a notícia saiu no site do principal jornal argentino, El Clarín, a manchete: “Brasil: uno de los turistas argentinos asaltados dijo que pareció planificado“.
Sobre o mesmo acontecimento, ainda no dia 16 de março, uma nota no site noticioso http://www.elpasotimes.com/spanish/ci_119289 .
E por fim, dando continuidade ao caso e na mesma data, a manchete: “Denuncian robo a 40 turistas argentinos en Brasil“ foi lançada pelo site http://www.chron.com/ .
Um dia depois, o site G1 anunciou: “Quadrilha assalta turistas em Búzios no Rio de Janeiro“.
Dia 24 – Site O Dia publica a manchete: “Turistas escapam da morte no Morro da Coroa”.
Glocalidades propõe um debate crítico argumentativo, com a condição de apoiar-se em quaisquer tipos de matérias veiculados em mídias, sobre a reflexão do Turismo no Brasil.
Diga seu nome, o lugar onde mora, o que faz da vida e participe!
Como estudante de hotelaria, sempre me atualizo com relação a visão dos estrangeiros sobre o país.Recetemente durante meu estágio em resorts no EUA, constatei que sim, a maioria dos cidadãos comuns de lá ainda vêem o Brasil como um País de Florestas e Carnaval,mas também me impressionei ao encontrar pessoas bem informadas que admiram a questão das nossas fontes de energia renováveis(biodisel e alcool de cana de açúcar) e afirmo, que em tempos de crise, e dependencia do petroleo os “gringos” já ambicionam algo além das belas “mulatas”… (Como brasileira ouvir isso em terras distantes nos inspira uma certa esperança positiva)
Em termos turisticos o que aponto como principal problema é a visivel falta de infra-estrutura básica e a sensação de segurança que predomina quase não há investimentos solidos para isso. Mas é fato que o Brasil ainda é impar com relação a locais turisticos, no entanto completamente mal explorados. Para isso, espero conseguir ver fatos que dê mais esperanças…
Por: Aline Kiyomi em 02/04/2009
às 21:41
Como diretora de escola, estou sempre preocupada com a questão da violência, pois creio que os educadores devem ficar sempre prontos para propor e realizar ações com seus alunos com vistas a prepará-los para uma vida em sociedade, onde possam exercer seus papéis de forma plena e aceitável.
Como estudante do doutorado da PUC na área de Linguística Aplicada, e cujo mestrado teve como tema a violência no discurso escolar, preocupo-me também com a repercursão das matérias da mídia internacional, quando versam sobre os casos nos quais relatam a realidade brasileira de modo a mostrar prioritariamente nossa pior face; a miséria, a prostituição infantil, a criminalidade dentre outras mazelas.
Por: Sonia Pinheiro em 08/04/2009
às 9:09
Resta saber até que ponto a divulgação dessas notícias é errônia e, supondo que não seja, até que ponto os líderes sentem-se obrigados a mudar tais rótulos…
Pegando como base a parte relacionda ao carnaval.. Algo dito é mentira?!
Fora que, sendo franco, as mesmas pessoas que julgam “errado falar das favelas” são as mesmas que têem preconceitos com esse tipo de ambiente. Não serei hipócrita a ponto de julgar tais manchetes já que, paulista que sou, também só vejo vincular notícias como estas sobre o Rio na mídia nacional, e a minha opinião não é tão diferente assim.
É a mesma coisa de olhar para os lados do oriente médio. São todos homens bombas lá?! Acredito que não.. mas todas as notícias relatadas sobre a região são sobre terrorismo e revoltas e soldados e armas e etc. Então, tem-se que esperar um certo discernimento também por parte dos espectadores, como a Aline mostrou no 1º comentário.
Além disso.. Você (supondo ser um europeu) se interessaria em ler uma manchete na página principal da Reuters falando “Golfinhos saltitantes no litoral brasileiro fazem a festa dos turistas”?! A menos que estivesse prestes a viajar, acredito que não. E se esta fosse a ocasião, procuraria uma página apropriada. O que estou querendo dizer, é que não há necessidade de a mídia estrangeira “falar bem” de países que ficam em segundo plano no senário internacional. Logo, resta a eles (bons sensacionalistas que são) “alertar” o resto do mundo sobre os perrengues que se enfrentam em lugares como este.
Eu, como especialista eletrônico (exatóide extremo..rs), mas acima de tudo como um leitor e “adicionador compulsivo de gadgets e feeds de notícias” vejo que é mais necessária a solução desses problemas, do que a mudança na forma de abordagem das notícias.
E para finalizar, não se pode tomar como base o que o Matt Groening – criador dos Simpsons- expressa no seriado, já que ele satiriza de forma extrema e bem humorada as “mazelas” de determinados locais. Lembrando que este fizera a mesma coisa em episódios sobre o Japão, México e por aí vai.
Por: Ricardo Gomes em 13/04/2009
às 13:37
Ao ler o artigo acima, mais uma vez retomei meus questionamentos acerca da imparcialidade da imprensa na divulgação de noticias. Questiono se deveria haver uma abordagem menos apelativa da imprensa e como seria possível alcançar tal fato.Não seria o papel da mídia jornalística simplesmente informar os fatos e deixar que o leitor tivesse suas próprias conclusões?
O turismo é inegavelmente influenciado pelas noticias veiculadas, fato este que pode ser claramente demonstrado pelos acontecimentos do 11 de setembro nos EUA, que levou a uma diminuição do turismo global, como mostram diversos estudos.
Como jornalista e educador, tenho uma preocupação também sobre a repercussão que essas noticias sobre a violência no Brasil tem no exterior. Mas recentemente, como demonstra o ministério do turismo no Brasil , o país tem atraído cada vez mais turistas com um crescimento de 150% no setor.Até que ponto essas notícias influenciam o setor então?
Há violência no mundo todo, em qualquer cidade, até mesmo nos países do velho mundo. No ano passado um amigo meu em viagem pela Europa, foi assaltado na Suíça e levaram 4 mil dólares que carregava na mochila. De quem foi o erro? Dele, é claro. Nunca devemos carregar tanto dinheiro assim, nem no Brasil. O fato é que quando vamos viajar nos esquecemos de regras básicas para se evitar roubos e assaltos e culpamos o país por isso.
Creio que hoje temos leitores cada vez mais bem informados e que não se deixam influenciar tão facilmente por fatos isolados.Concordo com o leitor Ricardo Gomes, ao acreditar que há uma visão mais discernível dessas noticias, assim como da visão do Brasil no exterior. Há muito tempo não vejo pessoas bem informadas e com uma boa base cultural falarem de um Brasil onde as pessoas vivem em casas nas árvores e que andam seminus.
Por: Rodrigo Rezende em 27/04/2009
às 1:40
Sou estudante de jornalismo e acredito que a mídia internacional tende, de maneira até natural, a dar mais destaque às notícias de violência de nosso país, especialmente quando esta é praticada contra estrangeiros. Certamente atrairá mais atenção dos leitores de fora eventos como assalto e violência contra conterrâneos deles aqui no Brasil do que notícias de qualquer outra segmentação do nosso país, especialmente para grande público.
E, apesar de certamente atrapalhar o turismo daqui, é determinante que casos como os citados no texto de vocês sejam divulgados e recebam uma reflexão de nossos órgãos competentes.
Mas é claro que o noticiário sobre turismo no Brasil não pode conter apenas essas tristes constatações, pois nosso país tem muito mais a oferecer (Importante dizer que esse “mais” que temos a oferecer não se resume apenas a carnaval, mulatas e caipirinha…).
Por: Guilherme Teixeira em 27/04/2009
às 21:06
Concordo em parte com o comentário postado por Ricardo Gomes, afinal nada do que foi noticiado é mentira e o melhor relamente seria solucionar os problemas constatados.
Mas sendo realista, sabemos que a violência não é algo tão fácil de ser resolvido e/ou combatido, milhões de outros interesses estão por trás disso e (infelizmente) temos consciência disso.
Agora acredito sim que a maneira de noticiar tais fatos deturpe a imagem que criamos de determinado lugar, afinal não é todo mundo que tem “discernimento”, tempo disponível para procurar outras informações sobre o referido lugar e mais que isso: acesso a outros meios de informação além do “querido” telejornal que aborda a notícia um tanto superficialmente.
Há alguns anos, um filme chamado “Turistas” foi lançado e nesse filme todos os esteriótipos possíveis que usualmente são usados nas notícias a respeito do turismo no Brasil foram utilizados: bebida, floresta, malandros, mulatas, protistuição, roubo, etc… o que mais me intrigou na história desse filme foi o fato de que ele é estrelado por vários atores brasileiros, assim, até ser a visão dos estrangeiros sobre o nosso país a gente até dá um desconto, mas nós nos prestarmos ao papel de denegrirmos (ainda mais) a imagem do nosso país internacionamelnte, quando se tenta alavancar o setor turísitico é lastimável.
Por: Ana Raquel Merighi em 27/04/2009
às 21:37